Entre o mar, a areia e a tela, Bemma continua a afirmar-se como um artista de linguagem muito própria. Numa fase criativa marcada por composições em preto e branco, onde o traço assume cada vez mais protagonismo, o artista apresenta no Taguspark a sua obra mais recente, num momento que reflete maturidade, identidade e a vontade de ser reconhecido pelo estilo, mesmo sem assinatura.
Nascido e criado em Oeiras, concelho ao qual mantém uma forte ligação emocional e artística, Bemma recebeu o Notícias de Oeiras com a boa disposição que lhe é característica. Apaixonado pelo sol, fez questão de responder à entrevista na área exterior, sentindo no rosto a luz que tantas vezes inspira o seu processo criativo. Foi nesse ambiente descontraído, mas profundamente genuíno, que falou sobre o percurso que tem vindo a construir e sobre esta nova etapa da sua obra.
Conhecido do grande público pelos impressionantes desenhos na areia na Praia da Torre, Bemma tem vindo igualmente a consolidar o seu trabalho em tela e mural, desenvolvendo um registo muito próprio, assente sobretudo na força do preto e branco e na expressividade do rosto humano. O artista assume que procura, acima de tudo, que a sua obra seja imediatamente reconhecida pelo seu traço, sem necessidade de qualquer identificação adicional. Esse é, talvez, um dos maiores sinais de afirmação de um criador: quando o estilo passa a falar por si.
No Taguspark, essa identidade surge bem vincada numa obra recente dedicada a grandes cientistas e filósofos, uma composição que ganha ainda mais força através de um efeito de luz negra, criando um destaque visual muito especial e acrescentando uma nova dimensão ao seu trabalho. A peça traduz bem esta fase mais madura e afirmativa do artista, onde o traço, a expressão e a intensidade visual se unem numa linguagem cada vez mais própria.
Ao longo da conversa, Bemma falou também com apreço da parceria que tem mantido com a Câmara Municipal de Oeiras, entidade com a qual já desenvolveu diversos projetos artísticos no concelho. Essa ligação institucional surge, no seu discurso, como um reconhecimento importante do seu trabalho e da sua presença no espaço público, num território onde se sente em casa e onde o seu percurso tem sido acompanhado de perto por quem o conhece desde sempre.
Nesta fase, além da exposição da sua obra mais recente, o artista continua a receber pedidos para trabalhos por encomenda, nomeadamente retratos, uma vertente que lhe dá particular prazer pela dimensão emocional que transporta. É precisamente essa proximidade às pessoas, aliada a uma linguagem visual muito própria, que tem reforçado a sua posição no panorama artístico local.
Entre os momentos mais simbólicos da conversa, houve ainda espaço para uma nota especialmente ternurenta relacionada com esta obra mais recente. Bemma revelou que falta apenas um pequeno detalhe por concluir, uma parte que deixou propositadamente para a filha, Ema, terminar. O gesto, simples mas profundamente significativo, transforma a peça também numa memória afetiva, unindo arte, família e história num mesmo trabalho.
Com um percurso feito de persistência, autenticidade e reinvenção, Bemma continua a provar que a arte pode nascer do silêncio, do mar, da luz e da verdade de um traço. E esta nova fase, agora em destaque , confirma-o como um artista que não procura apenas criar imagens, mas deixar uma marca própria e reconhecível.
• Janaína Santos







