A formação para a carta de condução de ligeiros, categoria B, está a entrar numa nova fase em Portugal, marcada por alterações que prometem maior flexibilidade no ensino prático, mas que também levantam questões sobre segurança, método e qualidade da aprendizagem. Embora se mantenha a possibilidade de iniciar o processo seis meses antes dos 18 anos, a principal novidade está na forma como a prática pode agora ser realizada.
Com a nova legislação, o candidato pode continuar a aprender num veículo de escola de condução, acompanhado por um instrutor credenciado, mas passa também a poder realizar exercícios práticos num veículo particular sob orientação de um tutor que cumpra os requisitos legais. Existe ainda a possibilidade de optar por um modelo misto, combinando os dois sistemas ao longo da formação.
À partida, esta maior flexibilidade poderá representar vantagens para muitos alunos. A possibilidade de reforçar a prática fora do modelo tradicional pode permitir mais repetição de exercícios técnicos, como manobras, e contribuir para a redução de custos com lições extra. Também as próprias escolas poderão sentir algum alívio nas despesas associadas à utilização constante dos seus veículos.
Ainda assim, no setor, há quem olhe para estas alterações com prudência. É o caso de Américo Rodrigues, coordenador pedagógico, formador e instrutor de condução da Escola de Condução de Paço de Arcos, que reconhece benefícios no novo enquadramento, mas alerta para a importância de não descurar a base pedagógica da formação. Na sua perspetiva, quando os primeiros exercícios são feitos apenas com tutor, torna-se mais difícil garantir um método de ensino organizado, adaptado ao perfil e à evolução de cada candidato.
O responsável chama ainda a atenção para a questão da segurança. Ao contrário dos veículos das escolas de condução, os carros particulares não dispõem de duplos comandos, o que pode aumentar a ansiedade do aprendiz e elevar os riscos em situações de trânsito mais exigentes. Além disso, um tutor sem preparação pedagógica poderá transmitir hábitos incorretos ou defeitos técnicos que mais tarde serão difíceis de corrigir.
Apesar das reservas, Américo Rodrigues considera que esta nova fase poderá funcionar bem, desde que seja aplicada com equilíbrio. Na sua opinião, o modelo mais vantajoso será o misto: uma fase inicial assegurada por um instrutor profissional, seguida de uma prática complementar com tutor. Um caminho que poderá conciliar flexibilidade, redução de custos e qualidade no ensino da condução.
• Janaína Santos







