Segunda-feira, Março 16, 2026
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SERUL, da sacristia da capela ao fantástico mundo motard

Imagem: Careca Pic's

NOTÍCIAS DE OEIRAS mergulhou nas origens da Sociedade de Educação e Recreio “Os Unidos de Leceia” (SERUL), que remontam ao início dos anos 40 do século passado, quando um grupo de jovens de Leceia começou a reunir-se na sacristia da capela de Nossa Senhora da Piedade. Foi aqui que tudo começou como nos confidenciaram Manuel Gonçalves (MG), presidente do clube, e Alice Marinho (AM), vice-presidente do clube e responsável da seção de motociclismo do clube do concelho de Oeiras. Muito forte no mundo motard, os dois responsáveis do SERUL falaram sobre a importância da junta de freguesia, do programa de Integração Social, do atletismo, do padel, entre muitos outros temas do clube que nasceu no dia 27 de abril de 1949.  

Imagem: Careca Pic’s
NO – Quais são as origens do SERUL?
MG – As origens da Sociedade de Educação e Recreio “Os Unidos de Leceia” (SERUL) remontam ao início dos anos 40 do século passado, quando um grupo de jovens de Leceia começou a reunir-se na sacristia da capela de Nossa Senhora da Piedade, mas depressa encontraram um local mais apropriado para realizarem as atividades a que se propunham, o ainda hoje recordado “salão da caganita”, assim chamado por se situar paredes meias com um curral de cabras, às quais era permitido assistir às atividades culturais e recreativas, através das frinchas existentes na separação entre os dois locais. Foi ali que se representaram as primeiras peças de teatro amador, com atores da terra, se realizaram os primeiros bailes, “abrilhantados” por uma orquestra com músicos também da terra e se ensaiaram “cegadas” e “danças” que, no Carnaval e na Páscoa, eram exibidas nas localidades vizinhas, frequentemente na rua.
Imagem: Careca Pic’s

NO – Como foi que as coisas prosseguiram?
MG – O espírito de solidariedade e de entreajuda que então se vivia nas pequenas localidades como Leceia, foi responsável pela mobilização coletiva para a construção de um edifício sede, acompanhada da constituição formal da SERUL como coletividade de cultura e recreio, em 27 de Abril de 1949. As novas instalações da SERUL, um natural orgulho da população de Leceia, incentivaram uma maior regularidade nas atividades que decorriam dos objetivos estatutários da coletividade, como eram as “matinés e soirés dançantes”, as apresentações de teatro clássico e de teatro de revista e a realização de “cegadas” e “danças”. Muitas vezes havia também sessões de cinema, promovidas por exibidores ambulantes, que traziam o ecrã, a máquina de projetar, o filme, o carro com o sistema sonoro para anunciar a realização do evento pela localidade, os cartazes de divulgação e os apetrechos necessários para reparar a fita do filme que, invariavelmente, partia mais de uma dúzia de vezes durante a exibição. Para além disso, durante os primórdios da televisão, quando ter uma TV em casa era um luxo para as gentes de Leceia, era no salão da SERUL que muitas pessoas se juntavam à noite para assistir às transmissões.
Imagem: Careca Pic’s

Bailes e vertente desportiva
NO – E bailes? Já estavam na moda?
MG – Bom, no campo da música de baile, a SERUL teve durante muito tempo a sua própria formação, devidamente adaptada às exigências da moda, no que tocava aos instrumentos utilizados. Ainda no “salão da caganita”, foi formado um grupo onde predominavam instrumentos acústicos de corda, como guitarras e banjos. Já na nova sede, foi constituída uma orquestra à base de instrumentos de sopro e, no final dos anos sessenta, foi formado um “conjunto” com instrumentos elétricos
Imagem: Careca Pic’s
NO – E a vertente desportiva? Quando surgiu?
MG – Foi só a partir de meados da década de 70 que a SERUL começou a incorporar a componente desportiva nas suas atividades, muito por força do incentivo promovido pela Junta de Freguesia de Barcarena, que teve a vontade e a capacidade para mobilizar as coletividades da freguesia para organizar e participar em atividades desportivas comuns, que ficaram conhecidas como “Jogos Juvenis de Barcarena”. É também por esta altura que se dá uma nova mobilização dos sócios da SERUL para os trabalhos de reconstrução e ampliação do edifício sede. No local do antigo edifício foi construído um pequeno pavilhão polivalente e, ao lado, foi construído um novo edifício, que acomodou os balneários de apoio ao pavilhão e o bar da coletividade no rés-do-chão e, no primeiro andar, o gabinete da direção, sala de jogos e outros espaços para apoio às diversas atividades.
Imagem: Careca Pic’s

NO – A Junta de Freguesia foi então importante para o impulso do SERUL?
MG – Sem dúvida, o impulso da Junta de Freguesia, em meados dos anos 70, para incentivar a prática desportiva, veio a ser determinante para o caminho percorrido pela SERUL no domínio do atletismo de estrada, tendo colaborado com a Câmara de Oeiras no lançamento do Troféu CMO – Corrida das Localidades e da Corrida do Tejo. De facto, os principais obreiros do envolvimento da SERUL nestas iniciativas municipais eram, nessa altura, crianças, jovens ou adultos participantes e/ou organizadores dos “Jogos Juvenis”.
NO – De que forma o clube deu o salto para o desporto?
MG – Entre 2008 e 2015, a SERUL focalizou a sua atividade desportiva no futsal, tendo conquistado, na época de 2012/2013, a Taça e a Supertaça da Associação de Futebol de Lisboa, no escalão de seniores masculinos, troféus alcançados pela primeira vez por uma coletividades ou clube do Concelho de Oeiras, tendo disputado o Campeonato da 3.ª Divisão Nacional na época de 2013/2014 e o Campeonato da 2.ª Divisão Nacional na época de 2014/2015 e a Taça de Portugal em ambas as épocas. Do enfoque no futsal veio a resultar o indesejável abandono da participação da SERUL nas provas municipais de atletismo de estrada.

Imagem: Careca Pic’s
Regresso do atletismo

NO – Quando reentrou, então, o atletismo em cena no SERUL?
MG – A partir de 2013, foi retomada a participação nas provas do Troféu CMO – Corrida das Localidades e na Corrida do Tejo, participação que vem sendo consolidada até ao presente, incluindo, desde 2014, a organização de uma das provas do Troféu. Na edição do Troféu de 2025, já participaram mais de 100 atletas da SERUL, cerca de metade femininos e também cerca de metade, crianças e jovens.
NO – E o motociclismo?
AM – Respondendo ao interesse demonstrado por diversos sócios, foi criada no início de 2018 a secção de motociclismo da SERUL, como alternativa, considerada mais adequada, à criação de um motoclube em Leceia, totalmente independente da Coletividade. Com esta opção, a SERUL, por um lado, proporcionou aos amantes desta modalidade o necessário apoio logístico, nomeadamente ao nível das instalações e, por outro, alargou o tipo de atividades realizadas pela Coletividade e aumentou também a participação de sócios nas atividades que desenvolvia anteriormente.
Imagem: Careca Pic’s
NO – Qual o valor da quotização?
AM – Para além da quota anual de sócio da SERUL (12€), cada membro da secção paga uma quota suplementar anual de 12€. Em 2025, estão inscritos 37 membros.
NO – Há outros apoios para a seção de motociclismo?
AM – Das atividades de angariação de fundos organizados pela secção de motociclismo, nomeadamente o pequeno-almoço motard, a festa de aniversário da secção e a feijoada solidária, resultam normalmente fundos superiores aos necessários para cobrir as despesas próprias da secção.

Recolha anual de sangue
NO – Quais as principais atividades da seção?
AM – São a participação em concentrações e na Bênção dos Capacetes e a presença em eventos de convívio e festas de aniversário de instituições congéneres por todo o país. Realizam também ações de solidariedade social, como o apoio a iniciativas de corporações de bombeiros e, em colaboração com o Instituto Português do Sangue e da Transplantação, a organização de uma recolha anual de sangue nas instalações da SERUL.
NO – Existe, então, uma forte ligação da seção à SERUL, certo?
AM – Sem dúvida! Salienta-se ainda o apoio desta secção à SERUL na organização das Festas de Leceia, tomando também a seu cargo o transporte dos andores da procissão, na realização da prova de atletismo do Troféu CMO, na execução da festa de encerramento das atividades e na presença da SERUL nas Festas da Freguesia de Barcarena.
NO – Apareceram outras modalidades?
MG – Em 2014 a Direção da SERUL procurou dar um novo impulso às atividades de natureza cultural da coletividade, por forma a retomar a sua tradição neste domínio. Para isso, consolidou a colaboração com a Associação Cultivarte – Quarteto de Clarinetes de Lisboa, iniciada em 2013. Desta colaboração resultou a realização regular de diversos concertos musicais de elevada qualidade artística, ao longo dos últimos anos.

Criação de seção de padel
NO – Como surge o padel?
MG – Procurando ir ao encontro do interesse de alguns sócios pela prática do Padel, em 2022 a SERUL criou uma secção desta modalidade. Tal como sucedeu com a secção de motociclismo, foi aumentado o número de atividades realizadas pela Coletividade e reforçada a participação de sócios nas atividades gerais da Coletividade. Federada na Federação Portuguesa de Padel, a SERUL participa com as suas equipas em diversos torneios e na Liga de Clubes. Em 2025, estão inscritas duas equipas masculinas, com 29 atletas e uma equipa feminina, com 13.
NO – De que forma aparece o Programa de Integração Social no clube?
MG – No entendimento de que a SERUL deve ser um agente de desenvolvimento social no sentido mais lato, foi iniciado em 2022, com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras, um Programa de Integração Social em Leceia, com enfoque nas crianças e jovens. Em 2025, frequentam as atividades deste programa, promovidas pela SERUL, mais de 70 participantes. Ao longo da sua história, a SERUL tem assumido um papel de relevo como agente de integração social, numa comunidade que, nos últimos 35 anos do século passado, foi três vezes assolada por alterações demográficas bruscas e intensas.
NO – Como estão as finanças do clube?

MG – A SERUL é uma Coletividade com uma situação financeira estável, mercê de uma gestão criteriosa das suas receitas e dos recursos financeiros obtidos através dos programas municipais de apoio ao desenvolvimento de atividades culturais, recreativas e desportivas.

MIGUEL NUNES